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Pneumologia
Dra. Letícia da Rocha Machado
Pesquisas sobre o comportamento do asmático no Brasil demonstram que duas em cada três pessoas que têm essa doença no país não seguem o tratamento de acordo com a prescrição médica, por isso, conversamos com a pneumologista pediátrica, Letícia da Rocha Machado, para saber um pouco mais sobre este polêmico assunto. A médica formou-se pela UFRGS em 1997 e possui título de especialista em pediatria e pneumologia pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Confira:
JE - Qual a principal preocupação de um pneumologista com os asmáticos?
A de que eles, ou os pais no caso da criança, tenham bem claro que a asma é uma doença crônica que necessita acompanhamento especializado e tratamento adequado. Isto inclui o manejo precoce da crise aguda e, se necessário, o tratamento preventivo entre as crises.
JE - A pesquisa sobre o comportamento dos asmáticos brasileiros com relação ao tratamento diz que dois em cada três não seguem as orientações médicas, o que tem a comentar em relação ao fato?
Não seguir as orientações médicas é o principal erro, pois acarreta a perpetuação das crises de asma e a partir daí o surgimento de limitações na vida do paciente, que seriam perfeitamente evitáveis.
JE - Quarenta e seis por cento dos asmáticos ouvidos no levantamento acreditam que a asma não precisa ser tratada. Quais os efeitos em longo prazo da falta de tratamento?
É importante entender que a asma é causada basicamente pela inflamação das vias aéreas e, sendo assim, o tratamento fundamenta-se em medicamentos antiinflamatórios. O estado de inflação permanente pode levar a alterações na estrutura da via aérea, o que tem o potencial de causar obstrução permanente à passagem de ar. Crises de asma não tratadas adequadamente também podem evoluir para infecções pulmonares (com suas seqüelas) e internações hospitalares.
JE - Apenas 27% dos pacientes entrevistados na pesquisa sabem que a asma é causada pela inflamação das vias aéreas. Isto seria resultado de divulgação ineficiente das informações sobre a doença?
Provavelmente sim. Há um enfoque grande no componente alérgico, no tabagismo, o que é muito útil, é interessante se evitar esse tipo de desencadeante, mas não é o suficiente.
JE - Qual o principal mal da atualidade para um asmático (ritmo de vida, poluição...)?
A poluição, no caso dos alérgicos, e a aglomeração, que propicia a transmissão de infecções respiratórias que podem desencadear ou piorar uma crise. Aí estão incluídas as creches, no caso das crianças.
JE - Quais são as limitações da vida de um asmático?
O que nós gostamos de salientar é que, com exceção das asmas realmente graves, um asmático adequadamente tratado e com acompanhamento médico regular, não tem limitações em sua vida, pode e deve fazer exercícios físicos, estudar, passear ao ar livre etc.
JE - O asmático deve ter acompanhamento psicológico para aprender a lidar com suas limitações?
Não vejo necessidade de um acompanhamento psicológico de um modo geral, pois como já mencionado não se trata de limitações, são cuidados preventivos diários que se incorporam à rotina do paciente, como usar as bombinhas, identificar a crise precocemente e já iniciar o tratamento, evitar grandes variações de temperatura etc.
Dando seqüência à entrevista, a pneumologista pediátrica, Letícia da Rocha Machado, fala, agora, a respeito do tratamento das alergias e a incidência dos casos da doença:
JE - O tratamento de doenças alérgicas, como a rinite, pode prevenir a asma?
A mucosa respiratória é a mesma das narinas até os brônquios, não há "barreiras" de "divisas" entre as diferentes regiões anatômicas. Sendo assim, se existe alergia e inflamação em todo o trajeto do trato respiratório, o tratamento deve ser integrado. É comum o paciente apresentar rinite alérgica e asma concomitantemente.
JE - Dois artigos científicos publicados na revista "The New England Journal of Medicine" trazem os resultados de estudos que avaliavam a eficiência da utilização da cobertura plástica de colchões para a melhora de doenças alérgicas como rinite e asma. A análise apontou a ineficiência dos mesmos, embora estes itens diminuam a quantidade de ácaros. Qual as vantagens de se usar objetos antialérgicos como esses e tantos outros?
O que estiver ao alcance do paciente para diminuir as chances de desencadear uma crise de asma ou diminuir os sintomas de uma rinite alérgica deve ser feito, já que são medidas simples que não interferem de maneira negativa na rotina e a resposta a esses cuidados varia bastante de paciente para paciente.
JE - Outro estudo, este da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, observou que a diferença da incidência de asma nas crianças era desproporcional entre as áreas pobres e ricas da cidade de Nova York. Há alguma relação aqui no Brasil entre os níveis socioeconômicos e as alergias ou doenças pulmonares?
O que se observa é a diferença no grau de compreensão da doença, do acesso ao tratamento preventivo com bombinhas, que ainda têm um custo elevado, e a possibilidade de um acompanhamento precoce e especializado.
JE - Há alguma orientação com relação à alimentação do asmático?
A associação entre asma e alimentos é muito tênue e poucas pessoas vão ter crises desencadeadas por alimentos em particular. Se um paciente tem alergia comprovada a algum produto como frutos do mar, tomate, leite de vaca, ao ingeri-los pode apresentar reação alérgica importante que comprometa até a via aérea causando falta de ar.
Nessa última parte da entrevista ela fala sobre as doenças associadas, os broncodilatadores e o tipo de vida do asmático:
JE - A asma pode ter doenças associadas ou provocar outras como cardiopatias pelo uso de broncodilatadores, por exemplo?
Aqui cabe ressaltar que há patologias que causam sibilância, o "chiado", e a asma é uma delas, a mais comum e a mais conhecida. Essas outras doenças têm suas próprias características e associações que o médico do paciente saberá avaliar, tirar conclusões e fazer o diagnóstico diferencial.
Os boncodilatadores, como o Berotec ou o Salbutamol, agem principalmente na musculatura dos brônquios, provocando relaxamento dos mesmos e, conseqüentemente, retorno dos brônquios ao seu diâmetro habitual, ocasionando alívio na sensação de falta de ar. Eles podem provocar taquicardia (que é a aceleração das batidas do coração) ou tremores das mãos, o que é transitório e não causa seqüelas de qualquer tipo.
JE - Existe relação entre a morte por decorrência da asma e o uso de broncodilatadores?
Não. O que existe é a relação entre uma asma grave sem controle, ou acompanhamento, e morte. O paciente que tem crises tão seguidas a ponto de usar broncodilatadores quase diariamente tem uma asma grave e necessita de tratamento preventivo. Nesse caso o que pode lhe causar problemas e até matar não é o uso dos broncodilatadores, é a própria doença.
JE - Há alguma orientação em relação ao tipo de vida que um asmático deve ter para prevenir as crises?
São os cuidados de bom senso: evitar variações bruscas de temperatura, evitar ambientes com fumaça de cigarro, poluição, lugares com alergênicos como pó e pêlos, estar atento a seus próprios sintomas etc.
JE - Qual o futuro da asma e dos asmáticos com relação às mudanças climáticas, à poluição e aos medicamentos?
A asma tem um campo enorme de pesquisas de medicamentos e sempre haverá avanços. Quanto à poluição e às mudanças climáticas, o importante é a consciência de que a asma é uma doença que precisa de prevenção. Se o asmático estiver fazendo o tratamento de forma correta estará preparado para enfrentar essas coisas.
JE - Deixe uma mensagem para as pessoas que sofrem com esta enfermidade:
A asma não é uma doença incapacitante, limitante, sabendo lidar com ela, tendo acompanhamento e tratamento adequado se pode controlá-la.
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